domingo, 17 de agosto de 2008

Manequins biológicos

A cidade movimentada. As luzes comerciais do entardecer. Os carros param no sinal e depois seguem, com milhares de momentos, de pensamentos ocorrendo a sua volta. Pessoas andam, as botas fazem ploc-ploc, as risadas juvenis fazem os velhos olharem curiosos.
Um velho senhor, roupa rota, e sua caixa de realejo está parado na vitrine. Tão ignorante quanto os carros, tão sem atenção quanto se é possível no espaço público. Toda a atenção que ele não dava, com o olhar fixo nos maniquins da loja à sua frente, no entanto, estava se voltando para ele. Ou ao menos assim parecia ao jovem tomador de sorvete na outra esquina.
A cada pessoa que tentava entender o que merecia tanta concentração do idoso, ao lado deste se postava. E paralisava todas as suas emoções com alguma coisa peculiar dos manequins, como pareceu ao observador.
Os manequins não tinham nada demais, aparentemente. Eram aqueles supostamente despojados e horríveis manequins estilazados, considerados modernos para uns, bregas para outros. Beiços grandes, olhos pequenos ou grandes, queixos avantajados, cabelos de gesso.
Será que aquele senhor os achara tão curiosos assim a ponto de dispender mais de dez minutos naquelas coisas?
Talvez. Mas seja lá o que ele tivesse visto, atraíra os outros também. Não era possível que os ponteiros do relógio fossem disperdiçados por algo semelhante à quando se quer fazer os outros de trouxa ao olhar para o céu como se tivesse algo lá, e que os curiosos, e tolos, copiam. Não. Era um fascínio bizarro, que, enquanto o observador refletia, já adquirira mais de 20 adeptos. E o número só ia aumentando.
Todos ficavam olhando, estáticos. Desemocionais, como o português não permite, mas era tudo que a situação dizia.
O observador tomou a última colherada de seu sorvete de maracujá, limpou os lábios com a língua e com o guarnapo, que jogou no pote, e se ajeitou para analisar melhor o fenômeno.
Alguns, ele enxergara, pararam com as mãos levantadas apontando. Existia gente de boca aberta também. Uns pouco ele percebia os olhos vidrados. Tinha gente tentando subir na banca de jornal próxima a loja para ver. E lá paravam, novamente, estáticos. Agaixados como um felino. Empalhados.
Era bizarro. Era anormal. E estava ficando calamitoso. A curiosidade estava ficando doentia. Tinha um grupo de jovens com roupas pretas juntando caixas na faixa de rua mais próxima da vitrine misteriosa para tentar saber o que era. E no topo, paralisado, ficou o primeiro que subiu, para reclamações dos amigos. Eles até maldosamente tentaram desequilibrá-lo, derrubar as caixas, mas parecia que a própria pilha de caixas paralisara. Ou estava pesada. Eram eles fracos?
Magros e branquelos, cheios de correntes e pulseiras para dar uma personalidade estética a si mesmos. Talvez.
Eles desistiram de derrubá-lo. Estavam assustados, mas os imbecis resolveram fazer outra pilha. A história se repetiu. Eles correram dali.
Uma van do jornal local chegara. Queriam fazer entrevistas com quem estava parado. Mas foram ignorados como almas inexistentes. O observador riu da tolice.
Eles tentaram com quem estava em volta, mas a retórica era repetida, assustada e medrosa.
Até que um homem forte e alto de regata, se achando muito inteligente, resolveu carregar as pessoas paralisadas dali. Para enxergar ele mesmo ou para parar com a palhaçada, o observador não soube.
Tinha gente reclamando da brutalidade, mas ficaram só nos gritos. O grandalhão tentou mesmo assim. Não conseguiu tirar quem estava na parte mais externa da multidão gélica. Mas alguém gritou, sem que o observador entendesse a lógica daquilo:
"Tenta mais para dentro!"
Ele se desviou com dificuldade com o seu corpo, chegou a subir nos ombros de alguns, mas conseguiu. E parou ali mesmo.
Os carros buzinavam com o caos, para dar um som mais condizente a ele. O jornal, ao vivo, falava de "epidemia paralítica de origens desconhecidas".
O observador, quase se levantando para participar da comoção pública, estacou assim que viu o tatatá do helicoptero da maior rede televisava do país. Sentou-se novamente.
Viu a polícia chegando e isolando o local, sob vaia da multidão atiçada. Para o horror de todos, o helicópetero, muito baixo e perto da loja, desgovernou e bateu na lateral do prédio acima da loja.
Os berros aumentaram, o fogo tomava conta do prédio. Muita gente correu. Menos quem olhara a imagem que a câmera da tv conseguira. E era mais da metade das pessoas ali, devido ao telão em cima do teatro.
Quanta estupidez divulgar isso era só o que o observador observou. Ele não olhou. Boa coisa ele sabia que não era.
Um inferno instalado. E ele assistia de camarote, entretido, emocionado, curioso, assustado, petrificado. Menos do que aquela a gente a sua frente. Ele incontrolavelmente riu com o pensamento. Mas se penalizou depois. Estava confuso sobre o que achava de tudo aquilo. Fascinado, com certeza.
Os bombeiros tentavam apagar o fogo. A polícia tentava acalmar a multidão. A tv estava dividida entre registrar o desespero e causar desespero para quem não estava ali.
Horas e horas se passaram. Ele estava ali. Sem comer, sem ir ao banheiro. Sem dormir. Policia, Bombeiros e Jornalistas também. Mas só. O público em volta mudava de cara. O número de observadores variava com os horários de trabalho.
E os manequins biológicos continuavam estáticos. Duas mães com carrinhos de bebê. O casal de mãos dadas. Os roqueiros nas caixas. Os maloqueiros na banca. Os jovens sorridentes com a garrada de vodka na mão do mais novo. A criança que segurava a barra da camisa do vô. Todos. Lá. E o observador, que se tornou ele mesmo um estático. Por vontade própria.

2 comentários:

OI disse...

Sua feia! Fez primeiro!

Ficou legal <3

Alb disse...

que muito lindo :o

gostei muito! mesmo!

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