
Se seus pais são daqueles que gostam de filmes antigos, de sua época de infância, ou por aí, você provavelmente já ouvir falar de Alfred Hitchcock. Caso contrário, existe uma chance de 90% que você, ao menos, tenha visto a famosa cena de "Psicose" da sombra de faca na banheira, com sua música que virou clássico das simulações de assassinato, ou mesmo os pássaros alucinados vindo do horizonte do mar para atacar a cidade, em "Os Passáros". Esse é Alfred Hitchcock.
Janela Indiscreta, de 1954, também faz parte da lista de grandes filmes do tido mestre do suspense.
E anteontem, eu descobri o porquê.
Estrelado por James Stewart (Jeff) e a belíssima Grace Kelly (Lisa, ao lado) (talvez você nunca tenha ouvido esses nomes. Aqui em casa, particularmente, esses nomes das antigas estrelas de Hollywood são ditos com grande entusiasmo e, às vezes deve-se notar, com um certo endeusamento. Bom, no
caso dos dois, é bem justificável. Pelo menos ao ver esse filme), o filme já se mostra prova pura de arte logo no começo. Claro, não dá para ver o filme com desleixo se você sabe que é um dos grandes filmes da década de 50, ainda na época de ouro de Hollywood, portanto, é o ideal é você brincar de crítico. Analisar cada postura, cada tomada.O começo, para um desinteressado, é apenas um monte de letreiros, com vários nomes, e aquelas músicas instrumentais antigas da Paramount e cia. Mas enquanto você finge que olha as letras, o fundo vai abrindo as cortinas da janela de Jeff, anunciando que o filme realmente tem a ver com janela -e muito - e que, lentamente, assim como o filme está começando, aqui está começando a trama.
E não são só as cortinas que vão se levantando que merecem ser notadas. Os prédios à fora, com cada vizinho, em algumas janelas, em seus afazeres e seu cotidiano, tão comuns, tão simples, são um toque especial.
Para familiarizar com a história: Jeff é um fotográfo desses aventureiros que acabou quebrando a perna ao se enfiar no meio de uma pista de corrida para tirar uma foto espetacular. Ele tem de ficar por sete semanas de repouso, e acaba criando o enxerido passatempo de observar seus vizinhos pela janela.
O casal que dorme na varanda, a dançarina que ensaia com poucas roupas e as janelas escancaradas, uma quarentona que vive sozinha e simulando encontros em seu apartamento, ganhando o triste apelido por parte de Jeff de Sra. Coração Solitário, o casal cuja mulher é inválida e reclamona, os recém-casados que estão muito animados com o seu... hum.. relacionamento à dois ativo, o talentoso compositor frustado (Inclusive, a primeira cena de apresentação do compositor, na qual aparece um gordinho consertando seu relógio tem uma das marcas do filmes de Alfred: ele mesmo aparecendo, fazendo uma ponta, ele, o gordinho)... Jeff vai acompanhando com uma certa obsessão a vida dessas pessoas, a ponto de virar madrugadas observando-a
s.Numa dessas, ele vê um dos seus vizinhos agindo estranhamente e percebe depois que a mulher dele some. Ele se engaja a tentar descobrir se o homem a matou, ou melhor dizendo, tenta achar provas para confirmar isso, porque ele e sua noiva (Lisa) estão mais que convictos que ele a matoue não há nada que o seu amigo detetive diga que os faça pensar o contrário.
O mais incrível do filme, na verdade, o que mais me chamou atenção, foi o roteiro. Quer dizer, sinceramente, a qualidade dos roteiros dos filmes antigos, numa questão de porcentagem de filmes produzidos para roteiros bons, é muito superior aos filmes que vemos agora. São inteligentes, são feitos de diálogos refinados, são verdadeiras artes. Os filmes antigos se destacam pela dedicação em fazer roteiros que, por mais que a história soe simples, valem a pena de serem apreciados. A época de ouro de Hollywood está ligada à isso: bons roteiros, bons atores, bons diretores. Tudo é tratado como arte.
Os diretores não fazem qualquer tomada, é possível reconhecer cada um pelo tipo de filmagem que se faz. Isso não está mais tão comum (salvo os Tim Burtons da vida).
Esse é outro ponto alto de "Janela Indiscreta" que na verdade é um ponto próprio do Hitchcock: a direção. Os suspenses de Hitckcock levam você a ficar tão curioso quanto o personagem, ou te dão uma ansiedade e uma expectativa sobre o que está acontecendo que parece que você está ali, dentro do filme. É uma sensação que eu tive e que ao ler sobre o filme e Hitchcock, descobri mais ou menos como é feita: nosso caro wikipedia fala do jogo de luz e do trilha sonora.
Eu não me lembro muito da trilha. Eu costumo prestar atenção em trilha. Não acho que ela foi a grande responsável nesse filme. Pode estar associado ao jogo de luz, mas há algo mais. E eu creio que é modo como as tomadas são feitas. Uma observação a ser feita: quase todo o filme é gravado da sala de Jeff. Somos nós e ele olhando pela sua janela.
Fascinante!
No que deve a atuações, o trio principal (que foi o que prestei mais atenção) é impecável. Não a citei, mas a massagista de Jeff, Stella (Thelma Ritter), é dona das frases mais legais e seus diálogos com Jeff são os melhores! Thelma é mais do que convincente, carismática e atrevida. James Stewart não é lá muito bonito, mas ele tem charme esquisito. Esquecendo as aparências, Stewart faz com uma simplicidade, um carisma, uma naturalidade que anda meio difícil... Mas é algo próximo ao Morgan Freeman, vai... E a Grace Kelly... Sinceramente, não dava nada! Sabe como é... Hollywood, rostinho bonito... Mas, numa comparação meio ousada, ela é meio Nicole Kidman. Bela, carismática e talentosa. Kelly tem uma história bem curiosa, ma
s o mais, vamos lá, "chamativo" é que ela se casou com o Princípe de Mônaco... e O Principe atual, o Albert II, é seu filho. Lisa no começo parece uma bem sucedida (e vestida) mulher de negócios em Nova York um tanto frívola. Ela não deixa de ser vaidosa, ainda bem, mas ela ganha um espírito aventureiro, que Grace Kelly faz com muita graça. E o personagem, devo citar, é bem independente, algo meio difícil nos papéis femininos daquela época (uma das poucas coisas que me irritam nos roteiros antigos: eles são masculinos).Bom. Falei bastante. O próximo filme para você alugar : Janela Indiscreta
Um comentário:
Eu me sinto numa péssima posição pra comentar sobre hitchcok uma vez que (vergonhasamente) conheço muito pouco ou quase nada sobe ele. Ainda sim, se o seu objetivo era influenciar alguem a ver o filme, a analisar o filme, e a se deliciar com a ampla obra do diretor, congratulações: já estou indo colocar pra baixar.
<3
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