Para mais de meia noite, o cheiro úmido de pós-acontecimento-pluvial, ruas vazias e sombrias.
Humor não lá muito bom. Filme de sessão da tarde no cinema. "Ainda bem que foi 3 reais!". Frio de uma única camisa de manga comprida em um clima de 15ºC. Silêncio.
Num estado nem um pouco confortável espiritual e físico, eu estava voltando pra casa por umas ruas meio sinistras porque queria chegar logo em casa. Nem eram tão sinistras assim, mas tinham ruas, digamos, mais iluminadas, com um trajeto mais longo.
Eu costumo ser meio "sem-noção", segundo dizem. Não definiria por sem-noção. Eu ando em ruas escuras, sozinha, e sei muito bem que é perigoso. Mas a possibilidade de algo acontecer é tão
certa quanto a de qualquer hora ou lugar. Pode acontecer quando for. Portanto, eu não deixo de fazer as coisas, e não sinto medo. É meio: Se acontecer, aconteceu.
No entanto, estranhamente, neste dia eu estava um pouco mais tensa. Eu tenho um bom instinto. E quando ele apita, é para eu me alarmar de verdade.
Eu olhava de um lado para o outro. Cada pessoa que passava era uma contração muscular. Cada olhada no meu rosto era uma análise.
Veio o moço da bicicleta. Deu aquela viradinha pra me olhar, com um sorriso que naquelas circunstâncias era bem assustador. Tensão. Depois ele deu outra viradinha e disse "Boa Noite". Não respondi, abaixei o rosto. Ele insistiu "Boa Noite!". E continuou me encarando. Eu já estava vendo a hora que ele ia virar aquela bicicleta e ir em minha direção ao invés de seguir em frente. Ele tentou mais um Boa Noite, que eu respondi fracamente, para ver se ele parava. Ele deu outro. Mas continuou andando em frente.
Ele já estava há uns 50 metros de mim e ainda me encarava, como se eu fosse algo muito curioso, ou chamativo, aquele sorrisinho terrível que minha mente amedrontada interpretava como um vou-te-estuprar debochado. "Ele vai virar, está fazendo algo para despistar".
Passou um tempo e ele não fez nada. Sumiu.
Logo depois, enxerguei um senhor sentado na mureta do canal 4. Cara de zangado, de infortúnios da vida. Cabelos grisalhos. Magro, segurando o que parecia um casaco laranja enrolado.
Eu terminei de virar a esquina, ele se levantou. Apertei o passo. Ele parecia andar tranquilamente, sem querer nada. Eu continuei com o passo apressado, olhando levemente para trás. Até uma hora que eu dei uma diminuída no ritmo, e quando olhei para trás só para olhar ao redor, ele estava a menos de 10 metros e dizia coisas, com a mão na frente da cintura, uma parte por baixo da calça. Não deu tempo de ver se ele tinha uma arma ou não, virei para frente rapidamente, por instinto.
Identifiquei, então, algumas coisas que ele dizia: "Passa o celular, madame! Sem barulho!" (detalhe: meu celular tava na mochila). Eu, maquinalmente, virei minha mochila para frente, e ergui minha cabeça. Não tremi, não me assustei, não gritei. Fiquei mais tensa, mas algo em mim dizia que aquilo não era para se preocupar.
Após mudar a posição da minha mochila, ouvi-o dizendo: "é com você 'memo', acha que eu to brincando? Tenho uma arma aqui!".
Não sei o que me deu. Simplesmente não acreditei. E a menção da arma não colou, por mais convicto que ele parecesse. Mas a dúvida se era ou não verdade surgiu brevemente, e eu, loucamente, talvez, pensei: "Bom, se for verdade, você vai ter que atirar".
O canal 4 é mais escuro que o 5, e estava bem silencioso. Mas ainda tinham carros passando. E na hora da ameaça passaram uns dois. E eu estava a uns 50 metros de uma pizzaria que ainda estava aberta. Eu tinha apressado o passo, claro. E também passava um senhorzinho com uma cara simpática na direção oposta. Eu dei Boa Noite para ele como se nada estivesse acontecendo, um sorriso tranquilo. Não sei muito o porquê eu fiz isso, mas acho que foi para desafiar o assaltante. Nem sei se ele ainda me seguia. Depois que virei a mochila, não olhei mais para ele. Tive até a impressão que talvez ele tenha parado onde ele me ameaçou.
Quando eu cheguei na pizzaria, é que eu olhei para trás. Não vi o assaltante. E também não vi o senhorzinho. Fiquei preocupada com ele. Será que eu devia ter avisado? Sinceramente, ele não parecia ter pertences. Estava de mãos vazias, parecia hippie, um cabelão preto obviamente pintado, bigode Sadam, roupas largas. Parecia pior financeiramente que o assaltante.
Mas a minha mente estava fechada. Para não pensar em nada. Passei pelos motoboys e o segurança da pizzarria, que conversavem, dei um olá como se tudo estivesse bem e segui.
A umas 3 quadras da minha casa, comecei a rir da minha 'loucura'. Acho que choquei o assaltante.